Sofia Cunha





INÚTIL

Segura-me inútil, assim tombada de tudo e de nada.
Segura-me, inútil!
Segura-me ainda que de nada te sirva.
Somos iguais, tu e eu, não vês?
Abraça com força o inútil de mim.
Larga o resto que não sobra.
Não há que temer.
Deixa ao medo o nada que resta do que seguras,
é tão pouco o que te confio.
Não pode ser assim tão difícil,
um quase nada de gente,
levezinho.
Não há Cerélac capaz de engordar a gente que não sou.
Nasceu assim o bébé,
enfezado.
Nem com papas lá vai.
É só,
         atirar ao ar e voltar a agarrar
         atirar ao ar e voltar a agarrar
         atirar ao ar e voltar a agarrar....
         Só isso.
Vais ver como ri de felicidade,
ou lá do que riem os seres levezinhos...
É só isso que quer,
que o segures.
Nem que o atires,
que o segures.
Mas se para isso tiver de voar,
não se importa,
fecha os olhos com força e quando voltar a olhar,
já ri,
seguro.
Segura-o inútil, assim tombado no ar,
de cada vez que voa,
de cada vez que ri.
Segura-o inútil, assim tombado de tudo e de nada.
Inútil?
Não... levezinho, apenas.
Lembra-te,
                  atirar ao ar e voltar a agarrar
                  atirar ao ar e voltar a agarrar
                  atirar ao ar e voltar a agarrar....
Repara como ri.
Que importa se de felicidade ou se de outra fantasia qualquer?
Segura-me, inútil!
Ri-te, inútil!
Aproveita se te faço útil.

Texto : Sofia Cunha
Fotografia : Estelle Valente

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