Paula Cortes





ENSAIO SOBRE O OLHAR

I
A LUZ

                - Atenta: a luz é perigosa. 
Até àquela noite, toda a minha existência tinha sido levada como a de uma traça. Bastava despontar um feixe de luz. Qualquer foco era bastante para bater as asas na sua direcção. Quanto mais luz, mais vejo – pensava eu com a certeza idêntica àqueles que na idade média asseveravam a verdade da teoria geocêntrica (e hoje a heliocêntrica e amanhã a teoria que falará a falsa verdade em que os homens tanto gostam de acreditar). Rejubilava com a possibilidade da luz iluminar mais a realidade e esta afigurar-se a meus olhos nua, real e verdadeira. Os máximos de um carro a alta velocidade numa auto-estrada, a sinergia do vento a empurrar-me, o frio a cortar-me as asas, o barulho em progressão de um carro a passar na outra faixa, depois uma mota... as luzes iam e vinham... Mas eu seguia uma, aquela... Vinha na minha direcção, cada vez mais forte, em crescendo. Sabia que era esta a luz, era aqui que estava a verdade, cada vez mais próxima. O brilho a ofuscar-me! A adrenalina de ser eu a conseguir tocar-lhe, eu e não outra traça. Sim, haviam mais traças atrás de mim projectadas pela vontade de querer ver mais, mas eu ia chegar primeiro... Era agora, o carro aproximava-se. A luz, a luz, a luz... Eis a LUZ.  
        - Não desconfiava que luz a mais pudesse levar à cegueira. – Proferi eu, numa manhã escurecida sobre uma pálpebra aberta à infinita impossibilidade de ver. O alcatrão fervia sobre os cortes do meu corpo mole, desfeito e, enfim, esmagado pela roda do carro que passou.  

II. AS SOMBRAS

          Tal como uma traça segue a luz, eu sigo as sombras. Estas atestam a existência dos corpos. Sigo-as porque não mais creio na luz, que mata, mas também morre.
       A minha realidade raramente contém pontos de luz fortes, encontra-se antes temperada pelo negrume. Não sei se pelo acidente que aconteceu, se por os meus olhos insistirem buscar, quase compulsivamente, ver o que acreditam ser. E é certo que desacreditei na luz para crer em sombras. A claridade desviou-se do meu olhar e despontou ela mesma sobre o horizonte de outros mundos que não o meu – noutra realidade destinada a que outros supusessem que a luz iluminasse. Mas nem mesmo as sombras atestam a realidade.
       A realidade existe porque a sombra dilacera o enorme pano em que a luz cria formas e contornos, limites de existir – silhuetas. As silhuetas escondem a inexistência. São espaços com forma entre a luz, o vazio.
       Crer no vazio? Ou hei-de supor que a luz, por não ser vazio, me diz mais?
       O homem não gosta da vacuidade, do mistério ou da simples imprevisibilidade dos buracos, porque o incomodam. Por suposta segurança, mais lhe vale uma qualquer luz que se julgue fazer iluminar, pois responde à dúvida, ao medo de não ver, à angústia de pensar sobre o abstracto.  

III
A LUZ E A SOMBRA

        Suponho que a realidade, vista pelo corpo com que sou-no-mundo, não seja senão uma dialéctica entre luz e sombra.
      Nós acreditamos no que vemos. Segui a luz, como aquele homem supõe que a matemática explica por via de complexos malabarismos de números o mundo. Mas a luz não ilumina toda a realidade e é preciso não reificar e absolutizar a existência ao que é iluminado. Segui depois as sombras, porque talvez fossem a prova de que um corpo existe. Mas nem isto é certo, pois nem sempre existem sombras. Primeiro, é preciso haver escuridão. Depois, é preciso luz que a dissipe. Ora, que será da noite sem luz? Vazio. Nem sequer uma silhueta.
       Na realidade, entre a luz e a sombra, entre o vazio, entre a ideia de pensar-me existir, há uma silhueta em forma de cruz que me diz todos os dias que a minha existência é finita e fala-me em surdina ao ouvido acerca do absurdo que é viver para morrer. Esta forma vazia dá conta da urgência de haver tantos sentidos humanos, tantos jogos paralelos entre luzes e sombras, conferindo assim uma forma ao universo capaz de o explicar em si-mesmo.
       A luz, tal como a sombra, existirão sem saber o que iluminam ou que apagam. O homem, ávido por explicações, continuará a partir da realidade que vê como se esta se tratasse da realidade que uma traça vê ao seguir a luz. Ambos existem. Ambos morrerão. Talvez uma qualquer realidade continue subsistindo aquém e além, antes e depois de qualquer buraco negro traçado pela persistente intermitência da luz que nos cega de tanta e tão tonta racionalidade, ébria e sempre incompleta, como a sobra da cruz. 


Texto : Paula Cortes
Fotografia : Estelle Valente

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