Teresa Lopes Vieira







A mãe das coisas

Escreve uma cena
disse ela
escreve um poema, um conto ou uma fábula.
Então eu resolvi falar um pouco sobre a tua vida, sabes, aquela das doze infâncias.

Quando ainda eras tão mais nua do que agora e te debruçavas nas árvores, corrias atrás dos patos. Lembro-me bem de como todos os animais de odiavam, por tu lhes infligires as maiores torturas. Alguns já eram mesmo capazes de detectar os teus passos ao longe, adiantando-se-lhes, fugindo. Ainda no tempo onde não te expunhas por aí, e poucos eram os que podiam dizer conhecer-te. Hoje, é difícil combater os que te pensam. São tantos.

Nessa altura, dizia-se que ao fundo daquele bosque havia a mãe das coisas. Ela gritava-nos a vida por entre o vento e depois nós decidíamos aceitar, se sim ou não, faríamos o que nos pedia. Lembro-me de que passávamos horas escutando o vento, à espera do seu próximo segredo. Graças a certas ordens, íamos crescendo mais um pouco. Mas era um crescimento brando e certo, uma evolução natural para jovens.
Certa vez, mandou-nos caçar meia-dúzia de perdizes. Mas nós nem o sabíamos fazer, por sermos novos demais. Mesmo assim, decidimos encher um saco de pedras e lá fomos, pelos caminhos ladeados de giestas e pinheiros. A verdade é que no fim do dia, tínhamos as ditas perdizes.
Foi graças a ela que te tornaste assim, não digas que não
(não digas nada)
de uma certa maneira, é a cada gesto e decisão tua que ela hoje se revela. As pessoas sabem que temos algo de diferente, sabem, só não conseguem dizer o quê.

Até que decidimos tentar ver a mãe das coisas. Foi difícil e tivemos de o fazer durante a noite, com medo de a assustar. Mas o nosso passo era certeiro.
Ao fundo de uma clareira
(lá bem no fundo)
estava ela, iluminada por dois grandes holofotes. Caiam-lhe estrelas pelos braços e olhava para a frente, não nos viu. No seu peito efervesciam letras, e percebi que eram as histórias de todos nós, que lhe passavam lentamente por cima.

Ser-se mãe é uma carga da trabalhos – lembrei-me de pensar na altura. E é por isso que nos ignora. Uma mulher, se for mesmo mulher
(o que é isso?)
vai estar demasiado ocupada para dar atenção aos problemas insignificantes dos outros. Parecia ser essa a lição que nos queria dar.
E a verdade é que guardei essa mensagem durante todo mim, para sempre. Hoje sou bem adulto e ainda vivo segundo esse lema.
Hoje sou bem adulto e tenho milhões de lemas.
É por esta altura que começas a achar que já há demasiadas personagens na minha história? Pois é, recapitulando: existo eu, tu, ela e a mãe das coisas.

E perguntas-te agora como sei disto
é porque a trago sempre encravada num abraço
aliás, somos todos um pouco
desta luz que lhe jorra das mãos. 


Texto : Teresa Lopes Vieira
Fotografia : Estelle Valente

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