Luís Serpa






Marie-Thérèse


“Tu sabes como eu era, já te contei: um bocadinho radical, ou totalmente idiota. O mundo era a preto e branco, nessa altura. Ou é sim ou é não; ou estás dentro ou estás fora; ou é dos nossos ou és contra nós. À medida que fui crescendo fui percebendo que as coisas não eram assim tão simples, que o mundo, como ele dizia, não é digital, é analógico. Quando o conheci já tinha as miúdas, uma excelente forma de aprender que as coisas, tal como as pessoas, não são simples. Sim, amava Pierre, muito. Estávamos casados havia doze ou treze anos – doze, tenho a certeza, foi quando a mais velha fez aquela asneira no colégio e tivemos de a mudar de escola – e nunca o tinha enganado.
Conheci-o quando estava a fazer uma reportagem sobre as micro-empresas estrangeiras em Paris. Fiquei com as portuguesas e as brasileiras, naturalmente. A ideia era seleccionar duas ou três de cada país, de diferentes sectores, e fazer um trabalho de fundo sobre elas. «Y en a marre des grosses boîtes, c’est des petites que je veux », disse-nos Stéphane, o editor. Não conseguia dizer uma frase que não tivesse pelo menos dois sentidos. Fiz o percurso habitual: consulado, anuários económicos, sites, amigos e conhecidos. Tudo. Sabes como sou, quando tenho de procurar alguma coisa. Não há porta que fique por abrir. Acabei com uma selecção gira, quatro empresas portuguesas e quatro brasileiras. É sempre melhor ficar com uma de reserva.
A dele importava produtos exóticos biológicos. Começara por ter uma série de fornecedores em Marselha, mas depois fartara-se de negociar com aquela gente e arranjou fornecedores em Paris.  Não ganhava dinheiro, claro, muito antes pelo contrário. Mas era teimoso como um caracol. Acompanhei-o duas ou três vezes nas suas expedições a Rungis; falei muito com ele, mas só de coisas relacionadas com o trabalho. Nunca me falou na família (tinha dois filhos) nem na mulher (uma russa linda de morrer, a julgar pelas fotografias que vi depois, quando já nos encontrávamos regularmente).
Um dia convidou-me para jantar. Vinha a Paris uma vez por mês; ficava três dias. Ligou-me ainda de Lisboa. Disse-me que chegava essa noite e se eu quisesse teria muito gosto em convidar-me para jantar. Achei graça, nessa altura já ganhava bastante bem a minha vida. Ele andava sempre aflito, mas mesmo assim convidou-me. Disse-lhe que sim. De qualquer forma Pierre estava habituado aos meus horários, e as miúdas também.
Fomos jantar a um restaurantezito – em Portugal seria uma tasca – perto da rue Daguerre. Ele ficava sempre pelo XIVème ou XVème, porque o avião aterrava em Orly. O restaurante chamava-se Au Vin des Rues, comia-se bem, tinha uma boa selecção de vinhos e não era muito caro. Lembro-me perfeitamente dessa noite. Foi a primeira vez que o vi com uma aliança. Estava apreensivo: no dia seguinte teria um encontro com um produtor marroquino de especiarias e não confiava nos marroquinos; mas achava que valia a pena encontrá-lo. «Deve haver pelo menos um marroquino honesto neste negócio. Só preciso de um, e pode ser este. Porque não correr o risco? O não já o tenho». Essa era outra das suas expressões favoritas, «o não já o tenho; agora há que procurar o sim».
Disse-lhe que não me apetecia falar do trabalho dele. Estava intrigada pela aliança e perguntei-lhe porque a pusera, nessa noite. «Porque queria que tu soubesses que sou casado», respondeu-me. Falava muito devagar, pronunciando claramente todas as sílabas, todas as letras.
Já nos tratávamos por tu. Os pais dele também tinham sido emigrantes em França, como os meus, mas voltaram para Portugal quando ele tinha quinze ou dezasseis anos. Não tinha essa mania portuguesa de tratar toda a gente por você, durante anos e anos. A verdade é que eu simpatizava com ele, e muito depressa estava a falar-lhe de mim, da minha vida, das crianças, do casamento. Ele ouvia devagar, também. Parece tolo, eu sei, mas a verdade é que se ficava com a impressão de que ele gravava tudo o que se lhe dizia, revirava cada palavra, a observava de todos os lados e depois a arrumava num canto da memória. Meia hora depois, um mês, um ano depois essa palavra saía do armário onde estava guardada e ele dizia uma coisa qualquer relacioada com o tema que te deixava perplexa.
Não me perguntes porque fui para a cama com ele a primeira vez. Não sei. Como te disse nunca tinha enganado Pierre e para mim as coisas não tinham muitas nuances, se bem já tivessem algumas. Porque é que enganamos a pesssoa com quem vivemos, que amamos, com quem passámos os piores e os melhores dias da nossa vida?  Foi no dia seguinte a esse jantar; ele acompanhou-me a casa de carro. À porta disse-me «gostava de te ver outra vez», eu respondi «telefona-me amanhã à tarde», ele ligou-me e nessa noite fizemos amor pela primeira vez.
Ele estava outra vez com a aliança. «Não gosto de enganar as pessoas. Sou casado e gosto da minha mulher». «Então porque estás na cama comigo?»
Talvez não acredites, mas isto durou quase dois anos. Uma vez fui ter com ele a Lisboa. Nunca me escondeu; era como se o que fazíamos não fosse ilícito, imoral. Se nos encontrávamos com alguém que conhecia apresentava-me como “uma amiga de Paris”. «O que disseste à tua mulher?» «Que estava com uma pessoa de Paris e provavelmente não viria a casa muitas vezes». «E ela não se importa?»
Respondia a todas as perguntas que eu lhe fazia, nota; mas por vezes não respondia logo.
A verdade é que raramente falávamos das nosas famílias. Vi a fotografia da mulher porque um dia deixou a mala no quarto do hotel. Telefonou-me pouco depois de ter saído para me pedir uma morada num cartão de visita que estava num dos compartimentos. Quando chegou, nessa noite, disse-lhe que tinha visto a fotografia. «É bonita, a tua mulher». «Obrigado». «Parece russa». «É». «como se chama?» «Ludmila». «Ela sabe que nos encontramos?» «Não». «E sabe que a enganas? Tens outras mulheres, para além de mim?»
«Não engano ninguém; não gosto de ser enganado, e não  faço aos outros o que não quero que me façam a mim». «E se a tua mulher tivesse amantes?» «Tudo o que lhe peço é que não mo diga, e eu não saiba por outras vias. De resto, pode fazer o que quiser. Ela sabe que eu a amo». «E tu sabes se ela te ama?» «Não. Não me interessa. O amor é apenas uma entre muitas razões que mantêm um casal junto. O que é amar alguém? Tu amas o teu marido?» «Amo» «E amas-me?» Dessa vez fui eu que não respondi.
A verdade é que começava a amá-lo, muito. E cada vez amava menos o Pierre. Era como vasos comunicantes. O amor de um enchia o outro. Ele era atento, educado – não me lembro de uma vez, uma que seja que não me tivesse aberto a porta do táxi, por exemplo – correcto. Sabia que eu tinha muito mais dinheiro do que ele mas raramente me deixava pagar um jantar ou um táxi; nunca o vi zangado, por muito mal que lhe tivesse corrido o dia. Cada vez que eu tentava falar-lhe de nós dizia-me «Marie-Thérèse, nós temos uma relação. Não a transformemos em meta-relação, está bem?»
Ele nunca se deu verdadeiramente, mas também nunca fugiu; percebes o que quero dizer?
«Todos gostamos de determinadas coisas em cada pessoa; ninguém é suficientemente grande para encher uma vida. O que é feio é enganar, é o adultério, é trair uma confiança. A infidelidade é normal; é quase uma inevitabilidade. Que me interessa saber se a Ludmila me ama, se tem amantes, se não tem? É a vida dela. O que amo nela é a parte desse vida que toca na minha, o seu gosto por música clássica, a maneira como educa os nosssos filhos ou me sorri quando chego a casa cansado ou me recita um poema em russo, de que não percebo nem as vírgulas. Mas não tenho com ela aquilo que encontro em ti». «E que encontras em mim?»
Costumávamos ver-nos neste mesmo hotel. Foi por causa dele que o conheci. Vivo no XVIème, o XVème era-me estranho, apesar de estar mesmo ao lado. Gosto deste aspecto familiar, paisible, pouco teatral do arrondissement. As coisas aqui são o que são. Venho cá muitas vezes. Compro um livro na Arbre à Lettres, vou lê-lo para o Rallye Perret, janto no Vin des Rues. De vez em quando tenho um amante que trago para este hotel, como tu. Pouco me interessa o que o pessoal pensa. Foi outra coisa que aprendi com ele, a ignorar o olhar dos outros. É difícil, ao princípio; depois é terrível, um pouco assustador. E finalmente é a coisa mais apaziguadora e relaxante do mundo. «O que os outros pensam de mim interessa-me pouco, porque o que eu penso deles também», disse-me. «Os outros interessam-te pouco», corrigi. «Não, os outros interessam-me. Mas não tudo nos outros». Era verdade: nunca vi ninguém que se interessasse tanto pelas pessoas; interessavam-se pelo que faziam, pensavam, como viviam. Só não lhe importava o que pensavam dele, ou das outras pessoas.
Ao fim de dois anos estava confusa. Cada vez o amava mais; cada vez a distância me era mais difícil de suportar. Ele escrevia-me, de vez em quando: uma carta, um postal, um SMS. Eu respondia-lhe com longos mails que, sei agora, não lia. E cada vez se tornava mais claro que a nossa relação nunca seria mais do que era: duas bolas de bilhar juntas numa mesa até que um taco as separe. «O amor é o encontro de duas liberdades, não de duas prisões», escreveu-me um dia. Foi a primeira vez que utilizou o termo amor comigo.

Um dia descobri que Pierre tinha uma amante. Fiz-lhe uma cena, mas na verdade não estava magoada. Era-me totalmente indiferente que ele visse alguém para além de mim. Fiquei incomodada com as suas desculpas esfarrapadas, as suas promessas que eu sabia não cumpriria – não via razão para elas, nem muito menos para que as cumprisse – a sua incapacidade de assumir. Estupidamente, foi também nesse dia que decidi que não o queria deixar. O amor tinha definitivamente saído do nosso casamento, e o que nos manteria juntos dali para a frente seria outra coisa. Não as miúdas, ou o dinheiro, ou a sua dor, se dor houvesse. Uma relação é uma escolha; pode ser interessante tentar definir o que nos fez escolher A ou B, mas não é de forma alguma essencial. A vida não se esgota numa pessoa, tal como o amor, o desejo, o prazer de uma conversa sobre um livro, o cinema ou a economia. Não há um aquilo que nos une uns aos outros; há um número infinito de aquilos que nos unem uns aos outros; não se excluem, antes pelo contrário: adicionam-se. O meu amor por Pierre acabara, e fora substituído por outra coisa qualquer – amizade, ternura, passado, futuro? Que interessa?
Não vou ao ponto de te dizer que o amor não existe. É óbvio que existe; para muita gente até tem essa função exclusiva, de fronteira, território, prisão, o que quiseres. Pouco me importa. Pensem o que quiserem, vivam como queiram. «Liberdade é poder escolher as suas prisões», disse-me ele um dia (era uma das suas citações favoritas, de resto). Para mim o amor, a sua ausência, a coabitação de vários amores ou a coabitação de várias ausências de amor é um dos dados do problema, não é o problema todo. A vida é um quadro no qual várias cores, várias formas, várias personagens coabitam; tira-lhe uma dessas cores, uma dessas personagens e o quadro fica incompleto, tosco, desajeitado. Pode também ser que para alguém esse quadro seja pintado com um amor, e que contenha uma personagem; muito bem. Não é menos verdadeiro do que o meu quadro, nem mais.
Sim, sou feliz. O meu casamento com Pierre nunca foi tão bom como é hoje. Ele não sabe de nada. Pensa que eu sou fiel; por vezes surpreendo-o num jogo de sedução com outra mulher qualquer, uma empregada, a mulher de um amigo. Não sei se os leva até ao fim ou não e não quero saber. Sou feliz quando estou com ele, como sou quando estou com outro homem, como sou quando estou sozinha. O mundo não é digital; é analógico. Entre zero e um há um número infinito de possibilidades, de escolhas, opções, vidas. Tudo tem um princípio, um meio  e um fim, mas cada uma dessas etapas é escolhida por nós. O taco que ele mencionava na sua analogia somos nós, sei-o agora e graças a ele, que o seguramos. Por vezes apaixono-me; é bom, estar apaixonada. Mas uma paixão não é a vida; é parte dela, só.  Não me dou toda a ninguém, mas também não quero ninguém todo e só para mim.
Como é que acabámos? Um dia cheguei ao hotel e deitei-me. Estava cansada, inquieta, tensa. Levantei-me, sentei-me à secretária, peguei numa folha de papel e escrevi “sou infiel; não sou adúltera”. Não sabia como continuar. O texto não era para ele, não tinha qualquer intenção de lhe escrever,  ele chegaria daí a uma hora ou pouco mais. Foi pouco tempo depois de ter descoberto o affaire do Pierre.
Peguei no meu saco, pus a folha de papel em cima da cama desfeita e fui-me embora. Mandei-lhe um SMS a dizer «Obrigada» ao qual ele respondeu «Obrigado eu. Beijo». Nunca mais o vi. Por vezes manda-me um SMS ou um mail. Não respondo, mas sei que ele não espera uma resposta. As palavras são um mundo à parte, não é? Os actos são concretos, vêem-se, é como se se pudessem tocar, não se podem ignorar. As palavras não. São o que nós queremos que sejam. Esta mesa é azul. O que é azul? Que importa o azul? Porque é azul? Amo-te. O que é amar-te? Porquê? Para que serve o amor?”

II
Marie-Thérèse é uma mulher grande, com um ligeiro excesso de peso; quase não se nota. Há pessoas assim, de tão magras por dentro não se vê que são gordas por fora. Ruiva, sardenta, com um nariz demasiado grande num rosto demasiado redondo não é muito bonita; começa-se por olhar para ela como para um puzzle com peças fora do lugar; depois qualquer coisa prende o olhar, que por ali fica a tentar perceber porquê.  Ela está habituada. “Ainda bem que não sou bonita”, dizia por vezes. “Faria se fosse”.

É jornalista num jornal económico. Conheci-a há pouco tempo numa festa. Tivemos esta conversa no dia em que, por inabilidade minha, ela me deixou. Disse-lhe «Pois eu amo-te e sei o que é amar-te» e ela respondeu «Tens sorte. Vou-me embora. Adeus». 










Texto : Luís Serpa
Fotografia : Estelle Valente

Latest Post

Francisco Resto


Francisco Resto




Santa Catarina, 18 de Fevereiro de 1983

Querido primo António,


Espero que esta carta te encontre bem de saúde e que já estejas mais habituado ao inverno rigoroso da Suíça.

Gostámos muito das fotografias do lago que nos mandaste na última carta, mas tive que correr para a frente da lareira, para que não congelar ao ver a neve em cima dos telhados das casas e ler as tuas descrições da vida nessa terra tão branca, em todos os sentidos, como lhe chamaste.


Infelizmente, não trago as melhores notícias sobre a tua mãe. A sua saúde está cada vez mais debilitada e está a perder a consciência das coisas mais banais. Ontem mesmo, chamou-me ao quarto, como se estivesse aflita e disse-me “Ó António, o teu pai está quase a chegar. Sabes, esta guerra não irá durar para sempre.” Eu tentei acalmá-la e dizer-lhe que não era o António, mas a tua mãe ignorou tudo o que lhe dizia e continuava a falar contigo. Pedia-me que a abraçasse e que tivesse paciência com a guerra, que haveria de trazer o teu pai de volta, e disse, repetidamente: “não saias de ao pé de mim, enquanto esperamos pelo pai. Ele disse que não demorava, não disse?”, eu fui respondendo-lhe que sim e abraçava-a como ela pedia mas, temo que não servia para nada. Continuava a chamar por ti.




Por aqui, continua tudo cinzento. As cores ainda não nasceram. O inverno parece querer ficar para sempre, deve gostar de nós. Mesmo que nós não gostemos dele. Sente-se só, como a tua mãe que não acalma enquanto não chegares.

A tua mãe continua a pensar que também foste para a guerra, como o teu pai e, seja o que for que lhe diga, insiste sempre em dizer que temos que rezar por ti, para que nenhum fantasma se apodere de ti.

A tia Maria passa por cá todos os dias, depois da missa, e fica lá no quarto com a tua mãe e lê-lhe, em voz alta, os livros que elas liam quando eram jovens. A tua mãe acalma-se e, às vezes parece que os olhos lhe voltam a brilhar. Às vezes, estão as duas com lenços nas mãos a limpar as lágrimas que lhes escorrem até ao nariz, como se as memórias descongelassem. Fico com medo que tanta emoção lhe faça mal, mas por outro lado, que outras emoções pode a tua mãe viver senão as do passado? 

Esta casa está a degradar-se muito e tenho a certeza que se um dia ficar desabitada, começará a ruir. Já pedimos, outra vez, ao senhor Domingos que conserte as janelas e ele tenta, mas continua a dizer que já estão muito velhas e que deviam ser substituídas por umas mais modernas, mas estou com medo de gastar os poucos recursos da tua mãe, e eu, como sabes, ainda não consegui resolver a minha vida. 

Tenho saudades do Luís, mas não posso voltar com atrás com a minha decisão e, se quero voltar a ter alguma dignidade, tenho de começar tudo de novo. Também tenho saudades de Coimbra, das minhas amigas e até me faz falta a biblioteca da universidade, onde trabalhei durante tanto tempo. Por outro lado, sinto que o meu casamento já estava perdido há muito tempo e, se há alguma coisa que mereça ser salva, é a tua mãe. Mesmo que só chame por ti, é como se chamasse por mim também. 

A tia Maria diz que o tio Victor conhece alguém que trabalha numa biblioteca e vai tentar interceder por mim. Por um lado faria-me muito bem, porque preciso de sair desta casa que às vezes também me atormenta, mas por outro lado, tenho medo de deixar a tua mãe só com a dona Josefina, que está igualmente com uma idade avançada, e às vezes nem sei quem precisa de tratar de quem. Sabes que com a dona Josefina a tua mãe fica lúcida? É muito engraçado. Começam as duas a discutir, sobre as coisas mais banais e a tua mãe até parece que se vai levantar da cama e dar uma grande descompostura na dona Josefina que, coitada, fica muito aflita e vai-me chamar para que a salve. 


Um dia destes, também tive que levar a dona Josefina ao médico, que está preocupado com a saúde dela. Diz que ela é rija como um pêro, mas que um dia pode cair da pereira, porque nenhum fruto dura para sempre, diz ele. 

Sabes o que ela me disse sobre ti? Disse-me que no dia em que nasceste ela foi a primeira pessoa que te viu e que quando olhou para a tua cara disse logo “com esta carinha tão bonita só podia ser uma menina” e depois acrescentou “sabe menina, o seu priminho, ainda hoje é muito bonito. Enganei-me ao dizer que ele era uma menina, mas talvez tenha sido porque o coração nasceu-lhe primeiro que o resto do corpinho, tão perfeitinho menina, tão perfeitinho.” E quando acabou de contar esta história, pegou-me nas mãos e disse: “A menina também era muito bonita mas nasceu com o coração virado ao contrário e só o vi quando lhe peguei ao colo.” E depois de dizer estas coisas, deu-me um beijo como se eu fosse uma criança, como se eu me tivesse portado bem e disse: “A menina vá chamar o seu priminho Antoninho que a mãe já o está a chamar.”

Sabes António, daquilo que mais sinto saudades é quando me abraçavas. Eu sei que eras meu primo mas, mesmo assim, quando éramos pequenos quase me apaixonei por ti. Teria apaixonado se soubesse o que isso era. Como não sabia, amei-te como um irmão, que era a mesma coisa, por outras palavras.




Como a dona Josefina pediu, estou aqui a chamar-te. A hora de Jantar já passou há muito tempo e ainda estamos à tua espera. A comida está a ficar fria.

Um grande beijo da tua prima, com muitas saudades.

Aurora



Texto : Francisco Resto
Fotografia : Estelle Valente

Fotógrafa.

Tecnologia do Blogger.

+

Blogger templates

Followers

Blogroll

About

About